Quem ganha quando a República perde?
A crise entre Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal e atores políticos já ultrapassou a disputa entre ministros. Aplicados ao episódio, instrumentos metodológicos desenvolvidos pelo Lawfare4All mostram uma escalada na qual medidas jurídicas, conflitos institucionais e narrativas eleitorais começam a se retroalimentar. A questão já não é apenas quem está certo, mas quem acumula ganhos enquanto a capacidade republicana de arbitrar conflitos se deteriora.
Fernando Fagundes Ferreira ·
A decisão de André Mendonça de afastar cautelarmente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, elevou a crise aberta no Supremo a outro patamar. A controvérsia, que inicialmente envolvia acusações recíprocas entre integrantes da Corte relacionadas ao caso Banco Master, alcançou diretamente o comando da Polícia Federal. A Segunda Turma chegou a formar maioria favorável à manutenção do afastamento, mas Gilmar Mendes pediu vista, suspendendo o julgamento enquanto a decisão de Mendonça permanece em vigor. Onze integrantes da direção da PF colocaram posteriormente seus cargos à disposição em manifestação de apoio a Rodrigues e Almada.
Também importa saber como essa medida chegou ao Supremo. O pedido de afastamento foi apresentado pelo Partido Novo, legenda do candidato presidencial Romeu Zema, que posteriormente também requereu a prisão preventiva de Andrei Rodrigues, não concedida por Mendonça. Depois da decisão, dirigentes do partido a celebraram publicamente e Zema transformou o resultado judicial em ativo político de campanha.
A apropriação eleitoral não ficou restrita ao Novo. Flávio Bolsonaro atacou Andrei Rodrigues e vinculou a crise à sua narrativa contra o governo Lula, enquanto outros candidatos da direita elogiaram a decisão. A Reuters registra que lideranças desse campo vêm utilizando o conflito para associar Lula a Alexandre de Moraes e ampliar a mobilização política contra ambos num momento em que a eleição presidencial se aproxima.
Esses fatos não demonstram que exista uma operação coordenada envolvendo ministros, partidos, candidatos ou atores estrangeiros. Demonstram, porém, algo que merece investigação analítica: movimentos produzidos por atores diferentes estão criando resultados políticos convergentes, enquanto cresce o custo institucional para STF, Polícia Federal e governo.
É exatamente nesse ponto que a análise deixa de ser apenas episódica.
Lawfare Assessment Tool™: o que mudou de nível?
O Lawfare Assessment Tool™ (LAT™), instrumento metodológico desenvolvido pelo Lawfare4All para identificar e avaliar padrões de instrumentalização jurídica e institucional, permite observar o caso não como uma coleção de escândalos independentes, mas como uma trajetória.
A diferença é decisiva. Uma decisão judicial controversa, isoladamente considerada, pode resultar de interpretação jurídica discutível, conflito de competência, erro processual ou uso excessivo de cautelares. O risco cresce quando diferentes indicadores deixam de aparecer separadamente e começam a evoluir na mesma direção.
É isso que ocorre no estágio atual.
A disputa deixou de estar circunscrita ao embate entre integrantes do Supremo e alcançou o comando de uma instituição policial de Estado. A intensidade da intervenção aumentou, o número de instituições envolvidas cresceu e os papéis passaram a se sobrepor de maneira cada vez mais problemática. Autoridades podem aparecer sucessivamente como julgadores, acusados, investigadores ou, segundo suas próprias alegações, vítimas dos fatos que precisam decidir.
O conflito também adquiriu capacidade de reprodução. Um relatório policial gera reação judicial; a reação provoca acusações contra outra autoridade; essas acusações fundamentam novas medidas; as medidas atingem a direção da polícia; a polícia reage institucionalmente; partidos e candidatos transformam a reação em narrativa eleitoral. O ato seguinte deixa de ser independente do anterior e passa a encontrar nele sua justificativa.
Aplicação do LAT™: o sinal de maior preocupação não está, portanto, em uma decisão considerada isoladamente. Está na combinação entre aumento da intensidade das medidas, expansão do número de atores, sobreposição de papéis e retroalimentação institucional.
Isso caracteriza uma escalada de risco.
Não significa afirmar, por antecipação, que todos os atos constituam lawfare. O LAT™ não funciona como selo destinado a declarar culpados. Sua utilidade está justamente em permitir distinguir alegações políticas de padrões verificáveis e identificar quando a acumulação desses padrões exige atenção democrática maior.
Nesse caso, a tendência registrada pelo instrumento é mais relevante que qualquer fotografia isolada.
O canibalismo lawfariano
A escalada acrescenta uma característica particularmente perigosa ao conflito. Instrumentos concebidos para investigar, controlar e limitar o poder começam a circular entre os próprios centros responsáveis por exercer esses controles.
Não estamos diante apenas da hipótese tradicional em que um aparato jurídico é mobilizado contra um adversário político externo. O que começa a aparecer é um circuito no qual integrantes das estruturas de controle passam a reagir à percepção de instrumentalização utilizando novos instrumentos institucionais uns contra os outros.
É o que temos chamado no Lawfare4All de canibalismo lawfariano.
Nesse estágio, o problema não depende de identificar antecipadamente um vilão único. A dinâmica pode deteriorar o sistema mesmo quando cada ator acredita estar protegendo sua competência, sua reputação ou a legalidade de sua própria atuação. O risco nasce justamente da interação entre essas respostas.
Aqui a teoria dos jogos oferece uma explicação mais consistente do que a hipótese de uma conspiração central.
Um jogo pode parecer ensaiado sem ter sido combinado
A sucessão dos acontecimentos parece, à primeira vista, coreografada. Mas sistemas estratégicos podem produzir comportamentos convergentes sem que exista um centro coordenador.
Alexandre de Moraes pode considerar racional reagir a informações que atingem sua atuação. André Mendonça pode considerar racional reagir a procedimentos que entende terem ultrapassado limites legais. A Polícia Federal pode considerar racional proteger sua autonomia. O Partido Novo pode considerar racional recorrer ao Judiciário contra uma autoridade cuja atuação questiona. Zema, Flávio Bolsonaro e outros candidatos podem considerar racional aproveitar eleitoralmente uma crise que confirme narrativas que vêm defendendo.
Nenhum desses movimentos exige coordenação entre todos os participantes.
A teoria dos jogos permite compreender o paradoxo: ações racionalmente defensáveis do ponto de vista individual podem produzir um resultado coletivamente destrutivo. Cada jogador tenta preservar ou melhorar sua posição, mas a soma das estratégias reduz a capacidade do próprio sistema de arbitrar a disputa.
Há ainda um mecanismo adicional. Quanto mais cada ator investe em sua posição, maior se torna o custo político, institucional ou reputacional de recuar. Admitir excesso pode ser interpretado como admitir culpa; suspender uma ofensiva pode parecer fraqueza; rever uma decisão pode ser narrado como derrota. O movimento seguinte passa então a proteger não apenas o interesse original, mas também o investimento realizado no movimento anterior.
O jogo adquire inércia.
E é nesse momento que surge uma pergunta diferente daquelas normalmente feitas sobre o caso: todos os jogadores perdem com a deterioração institucional na mesma proporção?
A resposta parece ser não.
Narrative Risk Response™: quem captura o valor produzido pela crise?
O Narrative Risk Response™ (NRR™), outro instrumento proprietário desenvolvido pelo Lawfare4All, desloca a análise do ato institucional para o ambiente narrativo em que esse ato passa a circular.
O NRR™ pergunta não apenas o que aconteceu, mas como o acontecimento é enquadrado, quem amplifica determinado enquadramento, quais públicos são mobilizados e quem consegue transformar a percepção produzida pela crise em vantagem política.
Essa distinção é central porque o beneficiário de uma escalada não precisa ser seu autor.
Um ator pode iniciar um procedimento contra outro; o segundo reage; uma instituição responde; a resposta provoca novo conflito; um quarto ator interpreta o conjunto; um quinto transforma essa interpretação em mobilização eleitoral. O maior ganho pode acabar nas mãos de quem não produziu nenhum dos atos originais.
Aplicação do NRR™: no episódio atual, existe uma assimetria evidente entre o custo institucional da crise e sua possibilidade de exploração narrativa.
Para o Supremo, a perda de confiança no Supremo é custo.
Para a Polícia Federal, a percepção de politização ou interferência sobre sua atividade é custo.
Para o governo, uma crise entre instituições centrais do Estado é custo.
Para a República, a dificuldade crescente de distinguir autoridade julgadora, parte interessada, investigador e acusado é custo.
Para forças políticas cuja narrativa se apoia justamente na tese de que “o sistema” está corrompido, aparelhado ou agindo contra seus adversários, contudo, a deterioração desse mesmo sistema pode ser convertida em confirmação narrativa.
Esse processo já está visível eleitoralmente. A crise do Supremo havia sido explorada por Flávio Bolsonaro nas manifestações de 7 de setembro e o afastamento do comando da PF forneceu, no dia seguinte, novo material para ataques ao governo e às instituições. A Reuters observa que o conflito abriu espaço eleitoral para essa mobilização.
A diferença entre produção da crise e captura do valor político da crise precisa ser preservada.
Sem ela, a análise corre o risco de substituir método por acusação.
Com ela, aparece uma questão mais sofisticada: um ator não precisa provocar determinado acontecimento para possuir incentivos racionais para ampliá-lo, enquadrá-lo e impedir que sua energia política se dissipe.
Trump e a convergência estratégica
Essa cautela é ainda mais importante quando se introduz a dimensão internacional.
Donald Trump e o bolsonarismo mantêm uma proximidade política pública e documentada, e a atuação do governo americano em relação ao Brasil já produziu atritos que ultrapassaram a diplomacia convencional. Moraes, por exemplo, tornou-se alvo da administração Trump em meio ao confronto político relacionado aos processos contra Jair Bolsonaro; a Reuters registra também que essa pressão internacional integra o ambiente no qual a crise atual do Supremo se desenvolve.
Isso não autoriza afirmar que o governo Trump tenha produzido ou coordenado a sequência atual envolvendo Mendonça, Moraes, Polícia Federal e Partido Novo.
Afirmá-lo exigiria evidências que não estão disponíveis.
Mas a inexistência de prova de comando não elimina uma segunda questão, inteiramente legítima: há convergência de interesses entre atores que se beneficiam do enfraquecimento das instituições associadas à resistência política e judicial ao bolsonarismo?
Essa é uma pergunta de análise estratégica, não uma acusação criminal.
A extrema direita brasileira pode obter dividendos eleitorais de uma crise que enfraqueça simultaneamente a confiança no governo Lula, no STF e na Polícia Federal. Um governo estrangeiro politicamente alinhado a esse campo pode preferir um resultado eleitoral diferente no Brasil sem que disso decorra automaticamente participação na produção de cada acontecimento doméstico.
A distinção é fundamental.
Não estamos dizendo que Trump moveu as peças.
Estamos observando que peças movidas por atores diferentes podem produzir um tabuleiro favorável a interesses convergentes.
Na teoria dos jogos, interessa menos imaginar uma mão invisível controlando todas as decisões e mais identificar a estrutura de incentivos e os payoffs disponíveis para cada participante.
É aí que a pergunta “quem ganha?” passa a ter valor metodológico.
Public Intelligibility Review™: quando a complexidade passa a trabalhar politicamente
Existe ainda uma terceira camada, identificável pelo Public Intelligibility Review™ (PIR™), instrumento do Lawfare4All criado para avaliar em que medida decisões, instituições e controvérsias públicas permanecem compreensíveis para a sociedade.
A aplicação do PIR™ neste caso revela outro tipo de risco.
Para compreender integralmente o episódio, o cidadão precisa identificar as relações entre um banco investigado, relatórios da Polícia Federal, acusações envolvendo ministros do Supremo, diferentes procedimentos judiciais, alegações de monitoramento irregular, pedidos apresentados por um partido político, decisões cautelares, composição de Turmas do STF, possíveis impedimentos, reações da cúpula policial e interesses eleitorais de candidatos à Presidência.
A dificuldade não é acidental.
Quando a complexidade institucional ultrapassa a capacidade ordinária de acompanhamento público, narrativas simplificadoras passam a competir em enorme vantagem com explicações jurídicas precisas. Termos como “PF de Lula”, “ditadura judicial”, “vingança”, “perseguição”, “aparelhamento” ou “golpe” tornam-se capazes de substituir cadeias inteiras de fatos, competências e controvérsias.
Aplicação do PIR™: a perda de inteligibilidade deixa, então, de ser um efeito colateral da crise e passa a funcionar como multiplicador de risco. Quanto menos compreensível se torna o conflito, maior o poder de quem consegue reduzi-lo à narrativa politicamente mais eficiente.
Isso produz outra assimetria importante.
A explicação institucional precisa demonstrar competência, rito, prova, causalidade e limite jurídico.
A propaganda precisa apenas produzir sentido.
Em ambientes de baixa inteligibilidade, a segunda frequentemente circula mais rápido que a primeira.
Três instrumentos, um mesmo diagnóstico
A combinação dos três instrumentos metodológicos do Lawfare4All permite observar aspectos diferentes de uma mesma dinâmica.
O Lawfare Assessment Tool™ (LAT™) identifica o aumento da intensidade institucional, a ampliação dos atores envolvidos, a sobreposição de papéis e a retroalimentação das medidas.
O Narrative Risk Response™ (NRR™) mostra como a energia política gerada por essa deterioração pode ser capturada por atores que não necessariamente produziram a crise.
O Public Intelligibility Review™ (PIR™) identifica o momento em que a própria dificuldade de compreensão do conflito passa a aumentar a vulnerabilidade do ambiente democrático à simplificação e à manipulação narrativa.
O cruzamento dessas três leituras sugere uma dinâmica que podemos definir como escalada institucional com captura narrativa.
Esse diagnóstico é mais preocupante do que a simples existência de uma divergência grave entre ministros do Supremo.
Instituições democráticas foram concebidas para produzir conflito sob regras. O problema aparece quando as regras passam a fazer parte do conflito, os árbitros deixam de ser percebidos como árbitros e a incapacidade de encerrar uma controvérsia passa a produzir vantagem para determinados participantes.
Nesse estágio, já não basta perguntar se Moraes está certo ou se Mendonça está certo. Também não basta investigar isoladamente a conduta da Polícia Federal, do Partido Novo ou de qualquer outro participante. Cada uma dessas questões precisa continuar sendo examinada de acordo com fatos, provas, competências e devido processo.
Mas o sistema precisa ser observado como sistema.
Quem ganha quando a República perde?
A pergunta final do jogo não é necessariamente quem iniciou a primeira jogada.
É quem possui um payoff positivo quando a confiança coletiva diminui.
Quando uma força política depende da legitimidade das instituições para governar, a deterioração institucional representa custo. Quando outra construiu parte significativa de sua identidade apresentando essas mesmas instituições como inimigas, sua função de ganho pode ser diferente.
Aquilo que reduz o patrimônio institucional da República pode aumentar o patrimônio narrativo do ator antissistema.
Isso não transforma automaticamente esse ator em autor da crise.
Transforma-o em possível beneficiário estratégico da escalada.
E essa diferença talvez seja uma das mais importantes para compreender as Eleições 2026.
O risco maior não é simplesmente que determinado grupo consiga instrumentalizar definitivamente o sistema contra todos os demais. É que diferentes atores aprendam a responder à instrumentalização real ou percebida utilizando os mesmos mecanismos, produzindo uma sequência na qual nenhum deles conserva autoridade suficiente para arbitrar o conflito final.
Uma República não depende apenas da existência formal de tribunais, polícia, Ministério Público, Executivo, Legislativo e eleições. Depende também de uma arquitetura mínima de papéis reconhecidos: alguém investiga, alguém acusa, alguém se defende e alguém julga. Quando essas posições começam a se confundir continuamente, o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a atingir a própria estrutura republicana.
É por isso que o escalonamento atual merece mais atenção do que a disputa sobre quem venceu a última rodada.
O problema do canibalismo lawfariano é que ninguém precisa vencer para que todos percam. O estágio atual acrescenta, porém, uma variável ainda mais inquietante: alguns jogadores podem lucrar exatamente porque os demais estão perdendo.
Se esse mecanismo continuar operando, talvez ao final permaneçam intactos os prédios, os cargos, os tribunais, as polícias e até o calendário eleitoral.
O que estará em disputa será algo menos visível e muito mais difícil de reconstruir: a capacidade de reconhecer uma autoridade legítima para encerrar o jogo.
Porque, quando todos os árbitros passam a jogar, a República pode continuar existindo no organograma. O que desaparece é sua capacidade de arbitrar.