O silêncio dos culpados
O cancelamento do último debate presidencial da Globo expôs uma eleição em que os principais candidatos preferiram ambientes mais controlados ao confronto direto diante de uma audiência comum.
Fernando Fagundes Ferreira ·
O último grande debate presidencial antes do primeiro turno não terminou mal; ele simplesmente deixou de existir. Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não comparecer, Flávio Bolsonaro desistiu poucas horas antes da transmissão, decisões judiciais alteraram aspectos relevantes do formato e, diante desse conjunto de circunstâncias, a Globo cancelou o encontro. O resultado foi mais revelador do que muitas das respostas que poderiam ter sido dadas no estúdio: a campanha presidencial de 2026 chegou à reta final sem que seus dois principais polos dividissem a mesma arena, sob as mesmas regras e diante do mesmo público.
A ausência de Lula já estava anunciada. O presidente preferiu participar do Flow Podcast e justificou a decisão dizendo considerar pouco produtivo o modelo de debates com muitos candidatos, nos quais, segundo ele, prevaleceriam tentativas de produzir frases de efeito em detrimento da discussão substantiva. A opção pode ser eleitoralmente racional e o Flow possui audiência de dimensão nacional, mas isso não torna equivalentes as duas situações. Num podcast, o candidato participa de uma conversa longa sem a presença simultânea dos adversários; num debate, precisa responder não apenas ao entrevistador, mas também às contestações produzidas por quem disputa contra ele.
Há ainda um aspecto simbólico nessa escolha que merece atenção. Lula trocou a maior arena jornalística televisiva do país por uma conversa conduzida por Igor Coelho, o Igor 3K, fundador e principal nome do Grupo Flow. Igor não tem formação em Jornalismo: registro acadêmico citado em pesquisa da Universidade Federal da Bahia informa que ele é formado em Letras, com habilitação em Inglês, e sua trajetória profissional começou no universo dos canais de videogame e da produção de conteúdo digital.
Isso não o impede de entrevistar um presidente, nem constitui exercício irregular de profissão. Desde 2009, quando julgou o Recurso Extraordinário 511.961, o Supremo Tribunal Federal considera inconstitucional exigir diploma específico de Jornalismo como condição para exercer a atividade jornalística.
O interesse do episódio está justamente em outro lugar. Um presidente da República recusou uma arena organizada segundo a lógica tradicional do jornalismo televisivo e escolheu um ambiente criado originalmente fora das redações, das escolas de Jornalismo e das estruturas clássicas de produção de notícia. Não é necessário diminuir o Flow para reconhecer o tamanho dessa mudança. A mediação política brasileira está sendo transferida, em parte, de instituições jornalísticas para plataformas e personalidades cuja autoridade nasce da audiência, da identificação comunitária e da capacidade de produzir conversas longas e distribuí-las posteriormente em redes e algoritmos.
Se a ausência de Lula era conhecida, a de Flávio Bolsonaro produziu uma contradição política mais imediata. Sua campanha pretendia explorar justamente a cadeira vazia do presidente e apresentar a presença de Flávio como contraste com a ausência de Lula. A estratégia foi desmontada no decorrer do dia por duas decisões judiciais: o TSE proibiu a exibição do púlpito vazio destinado ao presidente e o STF autorizou a participação de Renan Santos, do Missão, no encontro. Logo depois, Flávio também desistiu.
A justificativa pública foi a de que decisões judiciais haviam alterado as regras acertadas para o programa e criado uma situação de interferência sobre o debate. Essa é a explicação formal apresentada pela candidatura e deve ser registrada como tal. Mas os bastidores publicados pela imprensa acrescentam uma informação relevante: a Folha relatou que assessores de Flávio temiam ataques de outros candidatos caso ele participasse. Dias antes, o próprio Renan Santos já havia antecipado publicamente sua leitura do cenário ao dizer que, se fosse incluído no debate, acreditava que Flávio não compareceria.
Renan não era um participante neutro nesse cálculo. Ele vinha adotando uma estratégia particularmente agressiva contra Flávio e já havia transformado a ausência do adversário no debate da Band em material de provocação política, chegando a levar fraldas geriátricas ao estúdio para atacar tanto Lula quanto Flávio por não comparecerem. Quando conseguiu judicialmente entrar no debate da Globo, portanto, não chegava apenas mais um candidato ao palco: chegava um adversário que havia feito do confronto direto com Flávio uma parte de sua estratégia eleitoral.
Não há documento público que permita afirmar categoricamente que Flávio desistiu porque teve medo de Renan. Seria transformar uma interpretação plausível em fato. Mas também seria ingenuidade jornalística ignorar a sequência: a campanha pretendia explorar a ausência de Lula, assessores temiam ataques, Renan foi incluído por decisão judicial e, em seguida, Flávio abandonou o debate. No mínimo, sua entrada tornou o ambiente consideravelmente menos previsível para uma candidatura que esperava usar a noite para confrontar um adversário ausente.
A ironia política permanece independentemente da explicação adotada. Flávio passou parte da campanha acusando Lula de evitar o confronto e pretendia usar o debate da Globo para enfatizar essa ausência. Terminou a noite também fora do estúdio.
É nesse sentido que se sustenta o título “O silêncio dos culpados”. “Culpados” não significa culpabilidade criminal, nem pretende distribuir equivalências morais entre os envolvidos. Designa responsabilidade política pelo desaparecimento de uma arena pública que deveria existir a três dias da votação. Lula decidiu não comparecer; Flávio decidiu sair depois das alterações judiciais; o Judiciário modificou componentes relevantes do formato poucas horas antes da transmissão; e a Globo concluiu que já não havia condições para realizar o programa como planejado.
Cada uma dessas decisões possui justificativas próprias. O problema democrático aparece quando se observa o resultado agregado. Pela primeira vez em duas décadas, o primeiro turno de uma eleição presidencial brasileira terminou sem um confronto televisivo entre os candidatos que lideravam a disputa.
Durante décadas, o debate televisivo funcionou como uma espécie de praça pública artificial. Era imperfeito, teatral, muitas vezes superficial e submetido às escolhas editoriais das emissoras, mas obrigava candidatos, narrativas e eleitorados incompatíveis a coexistirem durante algumas horas. Ninguém controlava completamente o que ouviria, quem o contestaria ou qual pergunta apareceria em seguida.
A política plataformizada oferece outra arquitetura. Podcasts, lives e canais próprios permitem conversas extensas e podem produzir discussões muito mais interessantes do que os blocos comprimidos da televisão. Ao mesmo tempo, oferecem aos candidatos maior capacidade de selecionar ambientes, interlocutores e audiências. O contraditório deixa de acontecer necessariamente diante do eleitor e passa a ser reconstruído depois, por cortes, comentários, influenciadores, jornalistas e algoritmos.
Por isso, o problema não é decidir se o Flow é melhor ou pior do que a Globo, nem determinar quem possui credenciais suficientes para entrevistar um candidato presidencial. A pergunta mais importante é outra: quando cada candidatura pode escolher seu próprio palco, sua própria audiência e seu próprio grau de exposição ao contraditório, quem preserva a arena comum em que versões incompatíveis da realidade política precisam se confrontar diante do mesmo público?
Na noite de 1º de outubro de 2026, essa arena desapareceu. Os candidatos continuaram falando, as plataformas continuaram transmitindo, os tribunais continuaram decidindo e as campanhas continuaram produzindo suas próprias narrativas. O que faltou foi precisamente o espaço em que nenhuma delas poderia controlar inteiramente a conversa.
Talvez seja esse o verdadeiro silêncio dos culpados.