O fantasma da Proconsult: o golpe eleitoral não começa na urna
Em 1982, Brizola enfrentou uma tentativa de fraude que pôde ser confrontada com os registros materiais da votação. Em 2026, o reencontro entre grandes interesses econômicos, conglomerados de comunicação e candidaturas presidenciais recoloca uma pergunta incômoda: quem controla as condições em que a vontade popular se forma, circula e é reconhecida?
Conselho Editorial ·
Em 1982, Leonel Brizola precisou enfrentar muito mais do que um adversário eleitoral para conquistar o governo do Rio de Janeiro. Sua candidatura confrontou uma estrutura de poder associada à sustentação política da ditadura militar e um processo de totalização de votos que se tornaria conhecido como escândalo Proconsult. Quarenta e quatro anos depois, guardadas as proporções, determinados personagens institucionais e empresariais voltam a protagonizar episódios que recomendam atenção especial à relação entre comunicação, poder econômico e disputa eleitoral.
Não estamos diante de uma nova Proconsult comprovada, tampouco há fundamento para afirmar que uma fraude na contagem dos votos esteja em curso. A hipótese que merece investigação é mais abrangente: uma democracia pode ter seus resultados comprometidos politicamente muito antes de qualquer eleitor apertar a tecla CONFIRMA. A história de Brizola oferece, nesse sentido, uma lição que não deveria ser esquecida.
A Proconsult e o detalhe que não pode desaparecer da história
Nas eleições de 1982, a votação era realizada por meio de cédulas de papel. Os votos eram apurados manualmente, registrados pelas juntas eleitorais e posteriormente submetidos à totalização informatizada, etapa que, no Rio de Janeiro, ficou a cargo da Proconsult, empresa contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral.
A disputa entre Leonel Brizola, do PDT, e Moreira Franco, do PDS, partido de sustentação do regime militar, foi acompanhada por denúncias de inconsistências no processamento dos resultados. A suspeita central era de que a totalização pudesse ser manipulada para impedir a vitória do candidato trabalhista. Diante das discrepâncias, o PDT organizou uma apuração paralela, cujos números contrariavam os resultados inicialmente apresentados, enquanto as denúncias e as sucessivas conferências e recontagens permitiram confrontar a totalização informatizada e assegurar o reconhecimento da vitória de Brizola.
Aqui está um aspecto fundamental dessa história: os votos existiam materialmente, independentemente do sistema que processava seus resultados. A tentativa de fraude encontrou seu limite na possibilidade de confrontar os números produzidos pela empresa com os registros originais da votação. Não era necessário acreditar na Proconsult, tampouco aceitar a palavra das autoridades eleitorais como demonstração suficiente de legitimidade, porque havia meios independentes de verificar o resultado.
Essa é a lição que atravessa quatro décadas: em uma democracia, a confiança nas instituições deve ser consequência da possibilidade de fiscalização, jamais sua substituta.
A Globo, ontem e hoje
O escândalo Proconsult tornou-se indissociável de uma controvérsia histórica sobre o papel da Rede Globo na cobertura da eleição fluminense. A emissora sempre negou envolvimento na suposta fraude e apresentou explicações próprias para as discrepâncias em sua cobertura, ressalva importante para que uma acusação histórica contestada não seja convertida automaticamente em responsabilidade individual definitivamente estabelecida. Isso não reduz, entretanto, a relevância do episódio para compreender a extraordinária influência exercida pelos grandes conglomerados de comunicação sobre a percepção pública dos acontecimentos políticos.
Em 16 de outubro de 2026, o candidato presidencial Flávio Bolsonaro foi recebido para um almoço com João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais da empresa. Horas depois, seria entrevistado por Renata Lo Prete, no Jornal Nacional. Segundo a emissora, tratou-se de uma visita institucional solicitada pelo candidato, sem participação de dirigentes do Jornalismo, tendo a empresa afirmado também que receberia Lula nas mesmas condições, caso houvesse solicitação.
A explicação merece registro, mas não elimina o questionamento, especialmente porque a campanha de Lula criticou a diferença de tratamento, já que o presidente, entrevistado na véspera, não havia participado de encontro equivalente. O episódio ganha contornos ainda mais curiosos diante do relato do humorista Paulo Vieira de que teria sido impedido de visitar Lula durante a passagem do presidente pela emissora, sob a justificativa de evitar dúvidas sobre a imparcialidade jornalística. Aparentemente, uma visita aos bastidores poderia produzir dúvidas que um almoço com a cúpula empresarial, no dia da entrevista eleitoral, não produziria, distinção que a sociedade tem todo o direito de questionar.
Não há prova de que o encontro tenha determinado as perguntas de Renata Lo Prete, condicionado sua atuação profissional ou produzido qualquer acordo eleitoral. A entrevista, aliás, incluiu questionamentos críticos ao candidato. O problema é de outra natureza: por que os controladores de um dos grupos de comunicação mais influentes do país consideram institucionalmente conveniente receber um presidenciável para almoçar poucas horas antes de sua exposição jornalística em rede nacional?
Não se trata de exigir isolamento social dos controladores de empresas jornalísticas, mas de lembrar que independência editorial não é apenas uma declaração empresarial. É uma condição que precisa ser demonstrada e submetida ao escrutínio público, sobretudo quando relações institucionais privilegiadas envolvem organizações que desempenham papel decisivo na formação da opinião pública.
Os atores permanecem. Os mecanismos evoluíram.
A comparação com 1982 não exige afirmar que as mesmas pessoas estejam executando o mesmo plano, nem atribuir aos atuais dirigentes responsabilidades pessoais por acontecimentos de quatro décadas atrás. O que atravessa o tempo é a permanência de estruturas capazes de estabelecer relações privilegiadas com o poder político e, simultaneamente, influenciar a percepção pública sobre esse mesmo poder.
Há, entretanto, uma diferença fundamental entre os dois períodos: a Proconsult foi contratada para processar resultados de uma eleição já realizada, enquanto uma parcela decisiva da disputa política contemporânea acontece antes da votação, em infraestruturas de comunicação nas quais decisões editoriais, interesses econômicos, plataformas digitais e sistemas algorítmicos interferem na distribuição da visibilidade pública. A seleção dos acontecimentos considerados relevantes, o destaque concedido a determinadas declarações, a contextualização de denúncias e a desigualdade na circulação de acusações e respostas passaram a integrar um ambiente informacional cuja influência sobre a formação das preferências políticas não pode ser ignorada.
A concentração da capacidade de circulação da informação constitui um problema democrático mesmo quando não há fraude, crime ou conspiração, pois a igualdade formal do voto não elimina automaticamente as desigualdades materiais que condicionam as escolhas eleitorais. Um cidadão pode ter assegurado o direito de votar e, simultaneamente, encontrar-se submetido a um ambiente informacional assimétrico, no qual determinados interesses possuem recursos desproporcionais para influenciar o debate público.
É nesse espaço, situado entre o direito formal de participação e as condições efetivas de formação da vontade popular, que se encontra uma das discussões centrais sobre a integridade das eleições contemporâneas.
Não basta proteger a urna. É preciso proteger a democracia que chega até ela.
A defesa da confiabilidade do sistema de votação brasileiro não pode ser confundida com uma autorização para dispensar questionamentos técnicos, auditorias independentes ou aperfeiçoamentos institucionais, assim como a defesa de mecanismos adicionais de verificabilidade não autoriza concluir, sem evidências, que o sistema atual seja fraudulento. O princípio deveria ser simples: qualquer tecnologia empregada na administração da vontade popular precisa oferecer garantias verificáveis, proporcionais aos riscos que pretende controlar.
A lição da Proconsult demonstra o valor de registros, controles e procedimentos que permitam verificar resultados por meios independentes, mas existe uma segunda dimensão da integridade eleitoral que não cabe apenas à Justiça Eleitoral assegurar. O voto precisa ser protegido também contra assimetrias indevidas na infraestrutura informacional que antecede sua manifestação, o que envolve transparência sobre financiamento, relações institucionais, critérios de cobertura, publicidade política e funcionamento das plataformas digitais.
Não se pode exigir que o cidadão confie cegamente na neutralidade dos intermediários que organizam aquilo que ele consegue conhecer. Se a democracia é um sistema de distribuição e controle do poder, esse controle também precisa alcançar aqueles que possuem capacidade extraordinária de influenciar a formação da opinião pública, independentemente de sua natureza estatal ou privada.
Um golpe sem quartel, sem tanques e sem Proconsult?
Chamar de golpe toda distorção, favorecimento ou comportamento editorial controverso seria um erro, pois o conceito exige elementos que não podem ser substituídos por indignação política. Os acontecimentos examinados neste artigo não demonstram, isoladamente ou em conjunto, a existência de um golpe eleitoral coordenado em 2026, mas seria igualmente equivocado supor que uma democracia só pode ser comprometida por uma ruptura institucional ostensiva ou pela adulteração material de seus resultados.
Há processos de erosão democrática que se desenvolvem dentro das próprias instituições, por meio da concentração de recursos, da opacidade das decisões e da progressiva redução das condições de competição política. O perigo não está necessariamente na existência de um comando único, mas na possibilidade de convergência entre interesses que se beneficiam de uma distribuição desigual do poder de informar, persuadir e definir a agenda pública, circunstância que exige investigação, documentação e submissão ao contraditório.
O encontro entre Flávio Bolsonaro e a direção da Globo não prova uma conspiração, mas sua relevância jornalística tampouco desaparece simplesmente porque os participantes o classificaram como uma cortesia institucional. A pergunta sobre quem se reúne com quem, em quais circunstâncias e com que consequências para a transparência da disputa eleitoral é legítima, necessária e extensível a todos os candidatos, pois a crítica democrática não pode depender da identidade de quem eventualmente se beneficia dessas relações.
Brizola venceu porque foi possível confrontar os números
Em 1982, a existência de cédulas de papel, registros manuais, apuração paralela e recontagens permitiu confrontar a totalização informatizada e assegurar o reconhecimento da vitória de Leonel Brizola. Aquela experiência ensinou que a democracia precisa de mecanismos independentes para verificar seus próprios procedimentos e que nenhuma instituição deveria reivindicar confiança pública como substituto da possibilidade de fiscalização.
Em 2026, essa exigência deve alcançar não apenas os sistemas de votação e totalização, mas também as estruturas públicas e privadas que influenciam a circulação da informação eleitoral. Não se trata de equiparar uma empresa de processamento de dados a um conglomerado jornalístico, e sim de reconhecer que ambos podem ocupar posições estratégicas nas diferentes etapas pelas quais a vontade popular é formada, registrada, conhecida e reconhecida.
A história da Proconsult não deveria servir para interditar discussões sobre tecnologias eleitorais, tampouco para alimentar acusações de fraude desprovidas de evidências. Deveria inspirar uma exigência democrática mais abrangente, fundada na possibilidade de confrontar, por procedimentos independentes, aquilo que os centros de poder apresentam como realidade.
Brizola não venceu porque a sociedade foi obrigada a acreditar na Proconsult. Sua vitória pôde ser reconhecida porque havia meios de confrontar os resultados apresentados, experiência que, quarenta e quatro anos depois, recomenda ampliar o questionamento para além de quem conta os votos, alcançando também quem controla a informação e estabelece as condições da disputa.
Brizola não precisou provar que confiava no sistema. O sistema é que precisou demonstrar que Brizola havia vencido.
A democracia não começa na urna. E pode ser comprometida muito antes de o eleitor apertar CONFIRMA.