A falta de tempo para a transparência no Brasil
Após cobrar publicamente imparcialidade e responsabilização no STF, a Transparência Internacional Brasil completa um mês sem responder a 12 perguntas do Lawfare4All sobre sua própria trajetória institucional, da Lava Jato à crise atual. Talvez tenha faltado tempo. Inclusive para informar que faltava tempo.
Conselho Editorial ·
Tudo começou com uma cobrança de transparência
Em 16 de setembro de 2026, a Transparência Internacional Brasil publicou uma contundente nota intitulada *Julgamento no STF projeta grave risco de impunidade e aprofunda crise institucional*.
O documento reagia à tumultuada sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal realizada no dia anterior, em meio à controvérsia institucional envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. A organização manifestou preocupação com a resistência à investigação, apontou possíveis conflitos de interesse e criticou a condução institucional do episódio.
Também defendeu a pronta devolução do processo pelo ministro Flávio Dino, que havia pedido vista, e advertiu para o agravamento da crise institucional e o crescimento da pressão por mecanismos extraordinários de responsabilização, inclusive processos de impeachment.
A nota encerrava-se com uma defesa enfática da igualdade perante a lei e da necessidade de assegurar que os mecanismos de responsabilização alcançassem também os detentores dos maiores poderes da República.
Uma manifestação legítima, relevante e suficientemente categórica para despertar uma questão jornalística adicional: os critérios de independência, imparcialidade e responsabilidade institucional defendidos pela Transparência Internacional são aplicados com o mesmo rigor à avaliação de sua própria trajetória?
Foi nesse contexto que, no dia seguinte, 17 de setembro, o Lawfare4All encaminhou ao diretor-executivo da Transparência Internacional Brasil, Bruno Brandão, um convite para entrevista por escrito, composto por 12 perguntas.
O questionário examinava a evolução das posições da organização entre o período da Lava Jato e do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e a crise institucional contemporânea.
Não se tratava de contestar o direito da entidade de criticar o Supremo Tribunal Federal, tampouco de antecipar qualquer conclusão sobre sua atuação. O propósito era compreender como os critérios de integridade, imparcialidade e responsabilização reivindicados naquela manifestação também orientavam uma avaliação retrospectiva das posições assumidas pela própria organização.
O convite foi acompanhado de uma consideração expressa: a entrevista poderia ser respondida integralmente por escrito, no prazo que a Transparência Internacional considerasse razoável.
Hoje, 17 de outubro, completa-se exatamente um mês do encaminhamento.
Até o fechamento deste artigo, nenhuma resposta foi recebida.
A memória do combate à corrupção
A Operação Lava Jato representa um capítulo incontornável da história institucional brasileira recente. Seus efeitos ultrapassaram a persecução de crimes de corrupção e alcançaram o sistema político, a economia, a relação entre os Poderes e a própria percepção social sobre o funcionamento da Justiça.
A Transparência Internacional Brasil manteve relações de cooperação técnica com o Ministério Público Federal naquele período, cuja natureza já foi objeto de esclarecimentos públicos pela própria entidade.
A existência dessas relações não constitui, por si só, demonstração de irregularidade, conflito de interesse ou responsabilidade por atos de terceiros. Entretanto, tampouco torna impertinente o exame jornalístico sobre os critérios institucionais empregados, as avaliações produzidas e as consequências políticas e jurídicas daquele ambiente.
É legítimo perguntar se a compreensão atual da organização sobre independência, conflitos de interesse, seletividade e devido processo também pode ser aplicada retrospectivamente à Lava Jato.
Da mesma forma, é legítimo questionar se a entidade reconhece mudanças relevantes em sua abordagem ao longo dos últimos dez anos.
Autocrítica não é confissão de culpa. Revisão institucional não equivale à deslegitimação de uma trajetória. Ao contrário, a disposição de reexaminar posições anteriores pode representar precisamente um compromisso com os princípios de integridade que uma organização afirma defender.
O questionário encaminhado pelo Lawfare4All procurou explorar essas possibilidades sem exigir respostas previamente determinadas.
Quem fiscaliza os fiscais?
Há uma assimetria pouco discutida no ecossistema contemporâneo do combate à corrupção.
Organizações especializadas em produzir diagnósticos, indicadores e recomendações sobre integridade pública conquistam legitimidade para avaliar governos, tribunais, empresas, parlamentos e políticas públicas. Seus relatórios influenciam decisões, reputações e prioridades institucionais.
Esse papel é legítimo e necessário. Mas não confere imunidade ao contraditório.
A transparência não pode funcionar exclusivamente como instrumento de fiscalização de terceiros. Tampouco o combate à corrupção deveria converter-se numa credencial permanente de autoridade moral, capaz de dispensar seus próprios protagonistas das perguntas que dirigem aos demais.
É importante distinguir as coisas: uma organização da sociedade civil não está submetida às mesmas obrigações legais de transparência impostas à administração pública, nem possui obrigação irrestrita de atender a toda solicitação jornalística.
A questão aqui é outra: a coerência entre os valores publicamente defendidos e a disposição para esclarecer a própria atuação institucional.
A Transparência Internacional Brasil pode discordar das premissas apresentadas pelo Lawfare4All, contestar interpretações, oferecer explicações alternativas ou simplesmente informar que não pretende conceder a entrevista.
Todas essas possibilidades integram o exercício legítimo do contraditório.
O silêncio, entretanto, acrescenta uma nova questão às doze que encaminhamos.
O combate à corrupção também precisa de escrutínio
O Lawfare4All não pretende disputar com a Transparência Internacional o monopólio das virtudes republicanas. Até porque, felizmente, nenhuma das duas organizações dispõe de semelhante monopólio.
Temos bastante trabalho pela frente. Não apenas no exame da corrupção, mas igualmente na investigação dos métodos, interesses, narrativas e consequências produzidos em nome de seu combate, especialmente quando o discurso da integridade pública pode ser instrumentalizado em disputas políticas, econômicas e institucionais.
Combater a corrupção e examinar criticamente os mecanismos empregados para combatê-la não são atividades contraditórias. São dimensões complementares de uma mesma exigência democrática.
A corrupção deve ser investigada. O abuso institucional também. E as organizações que intervêm publicamente nesses debates não deveriam considerar inconveniente que seus próprios critérios sejam objeto de perguntas.
Uma agenda anticorrupção que negligencia o devido processo, a imparcialidade, a proporcionalidade ou os efeitos políticos dos instrumentos que mobiliza corre o risco de produzir novos problemas institucionais enquanto pretende resolver os anteriores.
Não basta perguntar se determinada iniciativa combate a corrupção. É igualmente necessário compreender como o faz, mediante quais critérios, com quais salvaguardas e sob quais mecanismos de responsabilização.
Essa exigência vale para o Estado, para o sistema de Justiça, para organizações privadas e também para quem exerce o jornalismo.
Inclusive para o Lawfare4All.
Talvez tenha faltado tempo
Convém admitir uma possibilidade perfeitamente razoável: pode ter faltado tempo à Transparência Internacional Brasil para responder às nossas perguntas.
A mensagem pode não ter chegado ao destinatário responsável, ter enfrentado algum problema administrativo, permanecido em tramitação interna ou simplesmente não ter encontrado espaço na agenda institucional da organização.
Não dispomos de elementos para descartar essas hipóteses, tampouco para afirmar que a ausência de manifestação decorra de uma decisão deliberada de não responder.
Se o pedido original não foi recebido, teremos satisfação em encaminhá-lo novamente. Se a organização necessita de prazo adicional, basta informar. Se discorda das perguntas, melhor ainda: esperamos conhecer seus argumentos.
O contraditório é precisamente aquilo que torna uma investigação jornalística mais robusta.
É verdade que, durante um mês inteiro, também não houve tempo para informar que faltava tempo. Mas não pretendemos transformar uma eventual dificuldade administrativa numa acusação institucional.
Nosso interesse jornalístico não é obter o silêncio da Transparência Internacional. É obter suas respostas.
O que não gostaríamos é que o episódio terminasse numa divisão de tarefas um tanto peculiar: a Transparência Internacional fazendo perguntas às instituições brasileiras e o Lawfare4All investigando por que ela não responde às nossas.
Há assuntos mais importantes a esclarecer.
As 12 perguntas que permanecem sem resposta
Por compromisso com a transparência de nosso próprio trabalho, reproduzimos integralmente, sem alterações, as perguntas encaminhadas à Transparência Internacional Brasil em 17 de setembro de 2026.
1. A Transparência Internacional reconhece que mecanismos de combate à corrupção e de responsabilização institucional podem ser instrumentalizados politicamente ou utilizados de maneira seletiva?
2. Essa preocupação com seletividade, imparcialidade e instrumentalização política já fazia parte, com a mesma centralidade, da abordagem da TI-Brasil durante a Lava Jato e o processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016?
3. A organização identifica mudanças relevantes em sua compreensão sobre a relação entre combate à corrupção, devido processo, independência institucional e proteção da democracia ao longo da última década?
4. Olhando retrospectivamente para o período da Lava Jato, há posições, avaliações ou prioridades da TI-Brasil que a organização hoje formularia de maneira diferente?
5. Que critérios a Transparência Internacional considera adequados para distinguir uma investigação legítima de uma investigação seletiva, politicamente instrumentalizada ou marcada por conflitos de interesse?
6. Os critérios utilizados pela TI hoje para avaliar conflitos de interesse, imparcialidade e accountability no STF podem também ser aplicados retrospectivamente à atuação de autoridades e instituições envolvidas na Lava Jato?
7. Durante o impeachment de Dilma Rousseff, a TI criticou aspectos relacionados à corrupção e à legitimidade política de atores envolvidos no processo. Por que, naquele momento, a organização não adotou o mesmo grau de preocupação pública com imparcialidade, seletividade e riscos institucionais que manifesta atualmente em relação ao STF?
8. A experiência brasileira levou a TI a reconhecer que uma agenda anticorrupção excessivamente concentrada em resultados pode, em determinadas circunstâncias, subestimar riscos relacionados ao devido processo, à proporcionalidade e à concentração de poder?
9. Como a Transparência Internacional responde à parcela da sociedade que recebe suas manifestações atuais com desconfiança em razão da proximidade histórica percebida entre a organização e o ambiente institucional da Lava Jato?
10. Existe hoje alguma autocrítica formal ou avaliação retrospectiva da TI-Brasil sobre sua atuação durante a Lava Jato e o período político iniciado em 2016? Caso não exista, a organização considera realizar esse tipo de avaliação?
11. A TI-Brasil considera que o ambiente institucional brasileiro atual demonstra consequências ou aprendizados relacionados aos conflitos institucionais e às práticas de responsabilização observados na última década?
12. Por fim: se transparência, imparcialidade e accountability devem valer também para aqueles que combatem a corrupção, em quais aspectos a Transparência Internacional considera que essa régua falhou, ou foi insuficientemente aplicada, no Brasil nos últimos dez anos?
O convite permanece aberto
As perguntas continuam disponíveis para resposta, assim como nosso espaço editorial para a manifestação integral da Transparência Internacional Brasil, inclusive posterior à publicação deste artigo.
Uma resposta que conteste nossas premissas será tão bem-vinda quanto uma resposta que as confirme. Uma explicação sobre eventual dificuldade administrativa também será devidamente registrada.
Não reivindicamos autoridade para estabelecer conclusões antecipadas sobre a atuação da organização, mas o direito de formular perguntas de evidente interesse público, inclusive àqueles que fizeram da transparência sua principal bandeira institucional.
O combate à corrupção é importante demais para ficar exclusivamente nas mãos de quem reivindica combatê-la. E a transparência, importante demais para funcionar em apenas uma direção.
Continuamos aguardando. Há um mês.
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Nota editorial e direito de manifestação
Em 17 de setembro de 2026, o Lawfare4All encaminhou à Transparência Internacional Brasil, por seus canais institucionais, um convite para entrevista por escrito dirigido a seu diretor-executivo, Bruno Brandão.
O pedido decorreu da manifestação pública da entidade em 16 de setembro sobre a sessão extraordinária do STF realizada no dia anterior.
Até o fechamento deste artigo, em 17 de outubro de 2026, não recebemos resposta nem confirmação de recebimento. Não atribuímos à ausência de manifestação qualquer significado probatório quanto à existência de irregularidades ou à veracidade de hipóteses apresentadas no questionário.
O Lawfare4All permanece disponível para reenviar a entrevista e publicar os esclarecimentos da organização, com identificação adequada e fidelidade ao conteúdo recebido.
Lawfare4All | Independent Research & Analysis
*Lawfare é para todos. Justiça, não.*