A Internacional da Sabotagem

A presença de Javier Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro transformou uma convenção partidária brasileira em palco de uma ofensiva política transnacional. Ao atacar o governo Lula, insultar Alexandre de Moraes e apresentar a eleição como parte de uma guerra continental contra o socialismo, o presidente argentino ajudou a deslocar a disputa eleitoral do terreno democrático para o confronto entre inimigos.

Fernando Fagundes Ferreira ·

A presença de Javier Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro transformou uma convenção partidária brasileira em palco de uma ofensiva política transnacional. Ao atacar o governo Lula, insultar Alexandre de Moraes e apresentar a eleição como parte de uma guerra continental contra o socialismo, o presidente argentino não apenas declarou preferência por um candidato estrangeiro: ajudou a deslocar a disputa eleitoral do terreno democrático para o terreno da confrontação entre inimigos.

Javier Milei atravessou a fronteira brasileira não como observador, mas como participante ostensivo de uma campanha presidencial. No lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, o presidente argentino discursou em favor do candidato, atacou o governo Lula e defendeu uma mudança política no Brasil. O evento também exibiu uma mensagem de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e uma reprodução de Jair Bolsonaro produzida com inteligência artificial. A campanha procurou, assim, apresentar Flávio não apenas como herdeiro político do pai, mas como integrante de uma articulação conservadora internacional.

A sabotagem começa justamente na substituição do debate democrático por uma narrativa de guerra.

Em uma eleição democrática, adversários podem considerar desastrosos os programas uns dos outros, denunciar erros, apontar abusos e disputar duramente cada voto. Ainda assim, reconhecem que o concorrente pode vencer legitimamente. A narrativa de guerra elimina essa possibilidade. Um lado passa a representar a liberdade, a salvação nacional e o bem; o outro é transformado em ameaça existencial, tirania ou inimigo interno. A partir daí, uma eventual derrota deixa de ser compreendida como resultado possível da escolha popular e começa a ser preparada como evidência de fraude, perseguição ou captura das instituições.

Foi exatamente essa moldura que predominou no lançamento da candidatura. Flávio apresentou sua campanha como continuidade da missão política de Jair Bolsonaro, enquanto Milei declarou que o candidato poderia salvar o Brasil do socialismo. A presença de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção nacional foi descrita pela Reuters como um apoio raro, capaz de mobilizar a base ideológica da candidatura e oferecer a ela uma espécie de prestígio importado num momento de dificuldades para formar alianças domésticas.

Esse apoio não prova, por si só, conspiração, comando estrangeiro ou coordenação clandestina. Presidentes, partidos e candidatos mantêm relações ideológicas internacionais, e manifestações de preferência política não são automaticamente ilícitas. O fato documentado, porém, já possui relevância suficiente: Milei utilizou a visibilidade e a autoridade simbólica da Presidência argentina para promover uma candidatura brasileira e pedir uma mudança no comando político do país.

É nesse sentido que se pode falar em Internacional da Sabotagem.

A expressão não designa uma organização formal, tampouco afirma a existência de uma estrutura criminosa ou de um comando centralizado. Trata-se de uma categoria analítica para descrever a convergência pública entre atores estrangeiros e domésticos que exercem funções complementares: legitimam um candidato, internacionalizam conflitos locais, atacam instituições brasileiras e difundem a ideia de que a eleição pertence a uma batalha política que ultrapassa as fronteiras nacionais.

Não é necessário haver uma sala secreta, um estatuto ou uma ordem escrita. A convergência pode funcionar pela circulação de narrativas e pelo empréstimo recíproco de autoridade. Um governo estrangeiro demonstra preocupação com a "integridade eleitoral". Outro presidente ocupa o palanque de uma candidatura aliada. Uma liderança internacional envia apoio em vídeo. A campanha doméstica incorpora essas manifestações como reconhecimento externo. Redes digitais recortam os discursos, eliminam as ressalvas e transformam a eleição brasileira em episódio de uma guerra mundial entre campos políticos absolutos.

A participação de Milei tornou essa dinâmica especialmente visível porque não se limitou ao elogio de Flávio Bolsonaro. O presidente argentino dirigiu uma ofensa pessoal ao ministro Alexandre de Moraes depois de ter sido impedido de visitar Jair Bolsonaro, que se encontrava em prisão domiciliar e submetido a restrições de visitas de natureza político-eleitoral. Moraes havia negado o encontro, e o presidente do STF, Edson Fachin, reagiu posteriormente, classificando a manifestação de Milei como incompatível com a civilidade esperada nas relações entre Estados.

É importante preservar a precisão: o ataque foi dirigido nominalmente a Alexandre de Moraes e ao contexto de uma decisão do STF. Não há base para afirmar que Milei tenha formalmente atacado o TSE naquele discurso. O efeito político, contudo, alcança o ambiente eleitoral porque Moraes se tornou figura central na resposta institucional às tentativas de desacreditar as eleições de 2022 e porque a campanha de Flávio voltou a associar decisões judiciais a uma suposta interferência no processo eleitoral. O próprio candidato afirmou anteriormente que a proibição de visitar o pai representaria tentativa de interferência na eleição.

A sabotagem trabalha justamente nesse espaço entre o alvo literal e o efeito simbólico. Uma decisão judicial específica é transformada em prova de perseguição política. A restrição de uma visita passa a representar a supressão de toda liberdade. A crítica a um magistrado deixa de discutir fundamentos jurídicos e converte o tribunal em personagem de uma guerra moral. O ataque circula internacionalmente, retorna ao país embalado pela autoridade de um chefe de Estado e passa a ser utilizado como confirmação de que as instituições brasileiras estariam sob suspeita externa.

Pouco antes da convenção, dois funcionários do governo Donald Trump haviam sido impedidos de entrar no Brasil. A agenda declarada envolvia integridade eleitoral, liberdade de expressão e liberdade religiosa. Autoridades brasileiras entenderam que a missão poderia ser usada para lançar dúvidas sobre as urnas e influenciar o ambiente eleitoral; o Departamento de Estado negou essa finalidade e apresentou a viagem como atividade diplomática rotineira.

O episódio já possui sua própria análise. Neste artigo, interessa o contraste.

Enquanto dois representantes norte-americanos eram barrados diante do receio de uma possível interferência indireta, o presidente argentino entrou no país, ocupou o palanque do candidato, atacou o governo brasileiro e insultou um integrante da mais alta Corte.

A missão diplomática foi impedida. O comício internacional aconteceu.
Os emissários de Trump talvez viessem produzir suspeitas sobre a eleição. Milei veio produzir campanha.

A diferença de comportamento não elimina a convergência de efeitos. Nos dois casos, a disputa doméstica é transferida para o exterior e devolvida ao Brasil com aparência de julgamento internacional. O sistema eleitoral, o Supremo, o governo e o candidato adversário deixam de ser avaliados apenas pelos eleitores brasileiros. Passam a ser apresentados como objetos de aprovação ou condenação por uma rede estrangeira de autoridades e movimentos ideologicamente alinhados.

Essa dinâmica possui uma dimensão lawfariana porque mobiliza instituições e valores legítimos para alcançar finalidades políticas que vão além de sua função declarada. Liberdade de expressão, direitos humanos, integridade eleitoral, soberania e independência judicial são princípios indispensáveis. Exatamente por isso, sua apropriação seletiva oferece grande eficiência narrativa.

A liberdade passa a significar imunidade para aliados, mas não igual proteção para adversários. A soberania é invocada contra pressões internacionais desfavoráveis, enquanto a participação de presidentes estrangeiros no palanque doméstico é celebrada. A independência judicial é defendida sempre que as decisões beneficiam o campo político e denunciada como tirania sempre que impõe limites. A integridade eleitoral deixa de representar o aperfeiçoamento verificável das eleições e transforma-se em uma fonte inesgotável de suspeitas, jamais encerradas por qualquer resposta institucional.

O paradoxo nacionalista é evidente.

O campo que denuncia ingerência estrangeira não rejeita a ingerência como princípio. Rejeita apenas aquela que opera contra seus interesses. Quando a pressão vem de fora para criticar o aliado, recebe o nome de agressão à soberania. Ao chegar para promover o candidato e atacar o adversário, converte-se em solidariedade internacional.

Esse comportamento não é exclusividade de uma corrente ideológica. Partidos de diferentes orientações constroem alianças externas, participam de encontros internacionais e recebem apoio de lideranças estrangeiras. O que distingue o episódio é a combinação entre quatro elementos: a presença de um chefe de Estado na convenção de um candidato; a retórica de guerra moral; os ataques às instituições brasileiras; e a reativação de suspeitas sobre a legitimidade eleitoral.

É essa combinação que transforma apoio político em risco de sabotagem democrática.

Sabotar uma eleição pode significar permitir que ela aconteça, enquanto se destrói antecipadamente a possibilidade de seu resultado encerrar a disputa.

Sabotar uma eleição não significa necessariamente impedir que ela aconteça. Pode significar permitir que o calendário seja cumprido, que as urnas funcionem e que os votos sejam contados, ao mesmo tempo que se destrói antecipadamente a possibilidade de o resultado encerrar a disputa.

A sabotagem prepara uma parte da sociedade para aceitar somente uma vitória. Se o candidato identificado com a liberdade e o bem vence, o povo falou. Na hipótese de derrota, o sistema fraudou, o tribunal perseguiu, a imprensa conspirou ou potências hostis interferiram.

A eleição continua existindo materialmente, mas perde sua função política fundamental: produzir uma decisão reconhecida como provisoriamente legítima pelos vencedores e pelos derrotados.

É por isso que a linguagem de guerra possui consequências tão profundas. Ela não apenas mobiliza eleitores. Ela elimina a contingência democrática. Se o adversário é um inimigo absoluto, sua vitória jamais poderá ser apenas o resultado de mais votos. Será necessariamente uma agressão à nação, um erro moral ou uma anomalia que precisa ser desfeita.

A presença de Milei reforçou esse enquadramento continental. O presidente argentino pediu que a onda de vitórias da direita chegasse ao Brasil e apresentou a disputa como extensão regional do conflito contra o socialismo. Reportagens internacionais também situaram a viagem dentro da aproximação de Milei com lideranças da direita radical latino-americana e de sua proximidade política com Donald Trump. Essa caracterização descreve um alinhamento público; não comprova comando unificado ou conspiração.

A distinção é indispensável porque uma análise responsável não pode reproduzir os métodos que critica.

Não se deve atribuir crimes sem evidências. Afinidade ideológica não constitui prova automática de coordenação clandestina. Apoio estrangeiro não equivale, por si só, a intervenção ilegal. A expressão "Internacional da Sabotagem" precisa permanecer claramente situada como interpretação sobre efeitos políticos e comunicacionais de fatos públicos.

Os fatos são estes: Milei participou da convenção e promoveu Flávio; Netanyahu enviou uma mensagem de apoio; a campanha valorizou essas manifestações; Milei atacou Lula e Alexandre de Moraes; o STF reagiu oficialmente; e dois representantes do governo Trump haviam sido anteriormente barrados em meio a suspeitas brasileiras de interferência no debate eleitoral.

A partir daí, a sabotagem pode ser reconhecida não como uma organização, mas como uma lógica.

Sua principal ferramenta é a teoria dos jogos. Cada reação das instituições brasileiras pode ser transformada em combustível para a narrativa adversária.

Caso o governo autorize uma missão estrangeira sobre integridade eleitoral, oferece palco para questionamentos politicamente orientados. Se nega os vistos, os visitantes podem apresentar-se como fiscais censurados. Se Moraes permite uma visita político-eleitoral a Jair Bolsonaro, a cena pode ser incorporada à campanha. Ao impedir o encontro, a decisão é apresentada como prova de autoritarismo. Se o STF reage ao insulto de um presidente estrangeiro, seus críticos alegam intolerância. Se permanece em silêncio, a agressão circula sem resposta.

A sabotagem tenta organizar uma situação na qual a instituição pareça perder independentemente da escolha.

Isso não torna todas as respostas equivalentes, nem significa que o Estado deva abandonar a aplicação da lei para evitar críticas. Significa que decisões jurídicas e diplomáticas não podem ser tratadas como se sua fundamentação técnica fosse automaticamente compreendida pela sociedade. A legalidade sem inteligibilidade pública deixa espaço para que o provocador produza sozinho o significado da decisão.

A resposta democrática não é a censura generalizada, a repressão indiscriminada ou a tentativa de impedir relações políticas internacionais. É a transparência radical: divulgação de agendas, identificação de interlocutores, fundamentação acessível das decisões, regras claras para autoridades estrangeiras em eventos eleitorais e distinção rigorosa entre apoio político, atividade diplomática e interferência institucional.

Também é necessário reconhecer o dever dos candidatos. Receber apoio internacional faz parte da política. Transformar o palanque em espaço para que um chefe de Estado estrangeiro ataque instituições brasileiras representa uma escolha diferente. Criticar magistrados e decisões é legítimo. Converter tribunais em inimigos morais permanentes prepara o terreno para que as regras sejam respeitadas somente enquanto produzirem o resultado desejado.

A Internacional da Sabotagem não precisa assumir o controle formal de uma eleição. Basta retirar dela a capacidade de produzir legitimidade.

Não precisa demonstrar fraude. Basta fazer com que uma parte da sociedade considere qualquer demonstração de regularidade insuficiente.

Não precisa impedir a votação. Basta conservar para o derrotado uma narrativa de mobilização contra o resultado.

Não precisa comprovar uma conspiração. Basta fazer com que autoridades estrangeiras, candidatos domésticos, redes digitais e discursos de guerra exerçam funções convergentes.

O paradoxo é que essa movimentação frequentemente fala em nome da soberania enquanto internacionaliza a disputa; em nome da liberdade enquanto recusa a legitimidade do adversário; em nome da democracia enquanto transforma a eleição em confronto entre inimigos; e em nome da integridade eleitoral enquanto prepara antecipadamente a rejeição de um resultado desfavorável.

Democracias sobrevivem a críticas, discursos agressivos e apoios internacionais. O que dificilmente suportam é a destruição sistemática da ideia de que o adversário pode vencer legitimamente.

A sabotagem começa justamente na substituição do debate democrático por uma narrativa de guerra.

E se completa no momento em que uma sociedade ainda consegue votar, mas já não consegue reconhecer o significado democrático do voto.

Dimensões lawfarianas identificadas

  • Sabotagem (destaque) — Conversão da disputa eleitoral em narrativa de guerra, internacionalização da pressão sobre instituições nacionais e preparação antecipada de justificativas para rejeitar um resultado desfavorável.
  • Desinformação — Circulação seletiva e descontextualizada de declarações estrangeiras para reforçar suspeitas sobre instituições nacionais.
  • Teoria dos Jogos — Estratégia em que qualquer reação das instituições brasileiras — autorizar, barrar, responder ou silenciar — pode ser convertida em vantagem narrativa.
  • Ideologia — Enquadramento maniqueísta que transforma o adversário em inimigo absoluto e a eleição em batalha entre o bem e o mal.
  • Geopolítica — Internacionalização da disputa eleitoral doméstica por meio da presença de chefes de Estado estrangeiros e da retórica de guerra continental contra o socialismo.
  • Perseguição — Apresentação de decisões judiciais específicas como prova de tirania institucional e conversão de magistrados em personagens de uma guerra moral.

*"Internacional da Sabotagem" é uma categoria analítica proposta neste artigo. A expressão não identifica uma organização formal, não atribui coordenação criminosa ou clandestina e não afirma a prática de ilícitos pelos agentes mencionados. O texto distingue fatos documentados de interpretações sobre seus efeitos políticos, institucionais e comunicacionais.*

Fontes e documentos consultados

1. Reuters — "Flavio Bolsonaro launches Brazil presidential campaign, touts support from Milei, Netanyahu" — 25 July 2026 2. Associated Press — "Brazil's Flávio Bolsonaro secures presidential bid despite challenges" — July 2026 3. Reuters — "Argentina President Milei flies to Brazil to kick-start Bolsonaro presidential bid" — 24 July 2026 4. Reuters Connect / EFE — "Flávio Bolsonaro launches his presidential candidacy and promises to continue his father's legacy" — 25 July 2026 5. Associated Press — "Brazil's top court denies request for Argentina's Milei to visit Bolsonaro under house arrest" — 18 July 2026 6. Folha de S.Paulo — "Moraes nega pedido de visita de Milei a Bolsonaro" — 18 July 2026 7. Reuters — reportagem sobre a negativa brasileira de vistos a Riley M. Barnes e Samuel Samson — 25 July 2026 8. Associated Press — "Brazil's government denies visas to US officials over upcoming elections" — 25 July 2026